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A educação pública na vala comum
14/11/2018
     O Brasil ocupa o desonroso lugar de último colocado no ranking sobre o status do professor entre seus cidadãos, elaborado pela Varkey Foundation.

     Inicialmente, é importante lembrar que o “lugar do professor” na sociedade brasileira já foi objeto de reconhecidas pesquisas, levadas a efeito no âmbito do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), do trabalho de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro nos anos 1950 e 1960.

     Um aspecto que deve ser ressaltado é que aquelas pesquisas demonstraram que o prestígio do professor estava associado ao prestígio da escola pública.

     A escola, em sua complexidade, levava consigo o prestígio de ser reconhecida como “local mais adequado” para a criança permanecer, com conteúdos somente oferecidos em sua dinâmica de trabalho e com pessoas com confiabilidade expressiva.

     Deve-se levar em consideração que a partir da década de 1950 o Brasil ampliou significativamente a oferta do que hoje chamamos de educação básica chegando, ao final do século 20, a praticamente universalizá-la.

     Porém, como a ampliação dessas vagas deu-se em uma dinâmica que pouco ou nada mitigava as desigualdades sociais, a abertura de novas escolas sistematicamente ocorreu, como afirmou Marilia Spósito, em direção ao povo, por obra de sua tenaz persistência reivindicatória.

     É necessário lembrar que assim que esse processo de expansão de vagas intensificou-se, simultaneamente a escola pública começou a viver o gradual, contínuo e crescente processo de sucateamento.

     Foram muitas as manifestações de desagrado apresentadas em editoriais da grande imprensa paulista, alertando que as populações mais pobres “estragariam a escola pública”.

     Ampliando sua presença num movimento que perdia a concentração nas zonas centrais das cidades, ao abranger populações suburbanas, a escola pública passava a atender alunos considerados, como mostrava Josildeth Consorte, “incompatíveis com as dificuldades escolares”.

     Diferentemente de outros países bem avaliados no ranking publicado, no Brasil o sucateamento da escola pública representou a “fuga” da classe média para a escola privada, não sendo registrada na história da educação brasileira nenhuma mobilização de “resgate” da qualidade por parte desses que procuravam na escola privada recuperar a “distância perdida”.

     Entre nós, portanto, a perda de prestígio do professor é inseparável da perda de respeito pela escola pública.

     Prestígio aqui pode ser lembrado com auxílio da reflexão de Max Weber, que nos ensinava que em dada circunstância o que é prestigioso não é simplesmente ter, mais sim ter o que o outro não tem.

     Era o caso das vagas em escolas públicas, valorizadas quando elitizadas e desvalorizadas quando popularizadas, com um visível e inegável deslocamento desse prestígio para as instituições privadas, o que somente não ocorreu no ensino superior porque o acesso a esse permaneceu por muito mais tempo distante das camadas populares.

     Da escola pública brasileira muito se fala e pouco se conhece de fato e, principalmente, de perto.

     O professor Luciano Mendes, da UFMG, sempre destaca que a escola pública é a instituição republicana de maior capilaridade no país e que mesmo em situações de profundas crises é a única reconhecida como sempre presente.

     A publicação de rankings, tal como o publicado pela Varkey Foundation, muito facilmente desloca o debate para uma zona nebulosa, na medida em que boa parte dos que tentam analisar as causas de resultado tão comprometedor optam pela crítica aos métodos e pela indicação (de resto óbvia) de que estudantes preferem as informações contidas nos dispositivos de conectividade que portam (celulares, internet etc.).

     George Snyders, ainda na década de 1960, lembrava que a escola é sempre o local onde está “o difícil, o sistemático e o trabalhoso”.

     Por isso, é enganoso pensar que o professor está competindo com o whatsapp ou com o celular porque, na realidade, essas plataformas não estão expondo os mesmos conteúdos de modo mais atraente, do que resultaria a derrota permanente do professor.

     Essas plataformas são rotas de fuga, em situações nas quais o professor lida com tal desestruturação das condições de trabalho que pouco têm a fazer para conter esse constante “desplugamento” em relação ao “difícil, sistemático e trabalhoso” que ele tem a oferecer.

     Tem-se igualmente a impressão que o desprestígio decorre “apenas” das condições salariais igualmente desfavoráveis.

     É evidente que se trata de uma questão de indubitável relevância, mas os pesquisadores que se dedicam ao tema registram outro fator predominando nesse processo.

     Trata-se de permanente “desprofissionalização docente”.

     Do que se trata?

     É uma dinâmica em andamento desde o final do século 20 nos circuitos das escolas públicas (processo iniciado nos EUA). Os sistemas de ensino têm recebido mais atenção e investimento que o professor, cada vez mais considerado um ator que “pode atrapalhar” a recepção do conteúdo com suas ideias, com suas opiniões, com seu modo de ver.

     Isso é especificamente parte de uma dinâmica de controle combinada com sucateamento, ao mesmo tempo em que a produção de materiais é vista como lucrativa fonte de ganhos.

     Nesse cenário, o desprestígio registrado deve ser pensado no bojo do que temos feito em relação à educação pública.

     O mesmo processo se aproxima perigosamente do ensino superior, cuja ampliação em direção às populações empobrecidas tem sido suficiente para que uma parte da sociedade resista e, inclusive, considere abrir mão da disputa, argumentando a “injustiça” contida nos expedientes que tentam atenuar desvantagens entre os que concorrem.

     Fosse a escola pública objeto de nossos mais atentos cuidados orçamentários e pedagógicos o professor brasileiro não estaria nessa desonrosa posição. Mas está e, além de tudo, tem sido sistematicamente desrespeitado.

     A posição que ocupamos nesse ranking pouco se modificará enquanto a educação pública for pensada como tem sido.Por Gilberto Alvarez (*) -  (*) Diretor do Cursinho da Poli e presidente da Fundação PoliSaber


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